quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

2º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Leituras: aqui

APRENDER O AMOR
NA PALAVRA DO SENHOR
Com o Evangelho de São Marcos,
colocar o ouvido no chão e escutar a Voz

Dormia no Templo e tudo. Conhecia-lhe os cantos e recantos, via e ouvia os outros rezar e falar. Sempre pronto para o serviço, estava em todas as rezas e orações. Habituado, como ninguém, às palavras, aos sermões, às rezas e às chamadas de serviço... Muito pronto, para Eli, ouviu chamar pelo seu nome e logo respondeu: “aqui estou”! Engano. Samuel era o seu nome. Mais um chamamento e de novo a prontidão: “aqui estou”! Não te chamei, observa Eli. E o jovem acólito, viciado como ninguém nas lides do Templo, andava distraído, ainda não conhecia verdadeiramente o seu Senhor, ainda não distinguia a voz. A Palavra de Deus ainda não lhe tinha sido revelada. O seu conhecimento de Deus era ainda e apenas exterior. E por isso, no meio das palavras, teve dificuldade em distinguir a Voz, em acolher a Palavra. Dada a insistência, Eli compreende que é o Senhor quem chama, e ensina a Samuel as palavras certas: “Falai, Senhor, que o vosso servo escuta”! 
                É a voz de Deus que chama sempre, com insistência e sem desistência. Chama sem cessar. Chama pelo nome. Chama a cada um para uma relação singular, espera uma resposta pessoal. Chama para o diálogo. Chama à comunhão com ele. Toma a iniciativa. Vem, imprevisível, ao encontro de cada homem... E quando acontece esse chamamento, Samuel não percebe. Tem dificuldade em dar-se conta da presença de Deus quando Ele está por perto, a chamar pelo próprio nome. ali, no lugar comum da sua vida. Samuel confunde a voz de Deus com as palavras humanas, julga serem falas dos homens quando é a Palavra silenciosa de Deus a chamar. Tem mais dificuldade em discernir de Quem é a voz do que em se dispor prontamente a escutar. Ajudou-o Eli nesta descoberta e então, percebendo ser a voz de Deus, Samuel acolhe o apelo da Palavra: “Falai Senhor, que o vosso servo escuta”. 
Creio que esta é a história de muitas histórias. Talvez a história de todos nós, habituados que estamos a encher o Templo com palavras... sem ouvirmos, no silêncio, a voz d’Aquele que nos fala e nos chama. Oiço muito as pessoas dizerem que O escutam. Há demasiadas palavras e pouco silêncio. Muito barulho e pouca escuta. Talvez esteja nesta dificuldade de Samuel retratada a confusão de cada um de nós ao ouvirmos apelos vindos de todos os lados, embrulhados em palavras doces e bem sonantes. Muitas palavras, muitos apelos, muitas chamadas que o mundo nos oferece. O que nos sobra em palavras de superfície, ocas, vazias, falta-nos em vozes de profundidade, em ecos de silêncio, em gestos que falem sem dizer palavra. Invadiu-nos um caudal impúdico de palavras vazias, despidas de espírito e forma, tagarelice fastidiosa e aviltante. E faltaram-nos as vozes. Palavras encarnadas, empenhadas, vividas, sangradas em testemunho. A voz é o rosto das palavras, os olhos das palavras, a verdade das palavras. Cristo Jesus, apenas com um olhar e um aceno no rosto chamou para a sua aventura alguns homens de poucas palavras. E no entusiasmo daquele encontro outros perceberam o mesmo apelo e seguiram-no. Sem discursos, sem programas: “Vinde e vede”. 
Que este templo, erguido no coração da Cidade, seja refúgio e abrigo para um silêncio profundo. No meio da gritaria das palavras saibamos, aqui colocar o ouvido no chão e escutar a Voz. Que aqui ressoe viva no coração de cada um a voz íntima e cordial do Mestre. Ele nos chama a ser santos, a estar e a permanecer com Ele. Tu que aqui vens, pára, escuta, olha... e segue por onde essa Voz te chamar.
Amaro Gonçalo

PROPOSTA PARA JANEIRO/FEVEREIRO
- Ler o Evangelho de São Marcos, o Evangelista do Ano
- Colocar os ouvidos do coração no chão da Palavra de Deus para escutar a VOZ!


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